sábado, 11 de maio de 2013

Nua anormalidade

Despi-me como se houvesse algo dentro de mim...
Me corroendo.
Corri com dedos ásperos pelo meu corpo,
Como se pudesse extirpar a dor e a fúria.
Arranquei a língua e sexo.
O pulmão soprei contra o vento.
Voou pelas negras nuvens.
Não voltou.
Parei de sentir o ar...

Não ouvi mais lamúrias.
Não vi mais o mundo.
Não verti mais lágrimas.

Despi-me com voracidade como se labaredas me incendiassem por dentro.
Intestino. Fígado. Baço.
Uma espinha dorsal tão retorcida pelo peso do que havia dentro de mim.
Ossos.
Músculos.

Coração.
Esmaguei-o.

Parou.

Continuei a sentir-me corroído.
Lapidado em carvão moído.
Dilacerado por estar tão nu e sem tato.
Olfato ou visão.

Mas não tive coragem de retirar o cérebro.
Não matei minhas ideias.
Mas também não tateei meus medos.
Aceitei estar sem chão.
Busquei o que sempre existiu em mim.

Rastejei atrás do que me resta.
Aceitei meu fardo.
Revivi.
Coloquei meu coração de volta ao peito nu
E esperei. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Máscaras

Trago máscaras para esconder um coração partido.
Partido há tempos, eu sei.
Tanto tempo que eu já não me lembro mais
O dia que sorri só porque meu coração sorriu.
E assim vou vivendo,
Com medo das cicatrizes que podem surgir.
Trago máscaras vorazes, ogras, ácidas
Assim, vou derretendo toda a pretensão de um dia
Ver meu coração sorrir.

É quase um crime...
Suicídio afetivo em doses homeopáticas.
É um cansaço que consome.
E uma vontade enorme de uma nova entrega.
Suavizei algumas máscaras.
Entreguei algumas ao vento.
Queimei-as comigo e agora quem arde é meu corpo...
Desejando novamente sentir meu coração sorrir...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pode ser...

Pode ser que haja mais do que esses tons nus.
Uma viagem no tempo, sempre futuro.
Já conheço demais meu passado e sei até onde ele me leva...
Onde quer que eu vá, o passado estará lá.
Impregnado em minha pele, até os ossos.

Pode ser que haja mais destes tons nus.
Um desejo calado por mãos calosas...
Mãos do passado caindo em lábios desejosos
Por um corpo trêmulo e descarnado,
Sentindo a falta de promessas e sonhos,
Impregnado em minhas víceras, até os poros.

Pode ser que haja menos destes tons nus.
Transforme meus pequenos mundos num único
E que jamais seja só... ou um só.
Passado será guardado em grandes baús.
Deverei dobrá-los em lembranças tênues
Impregnado de agradecimento e resignação.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Ao direito...

Me reservo ao direito de te dedicar ódio.
Não o ódio vazio de um coração partido...
Nem tão pouco um sentimento gratuito!
É aquele ódio em espasmos, que só vem quando penso.
Só se incendeia aos poucos mas nunca chega a incandescer.

Me reservo ao direito de te dedicar ódio.
Não o ódio revolucionário...
Nem tão pouco um sentimento em vão!
É aquele ódio para te manter vivo dentro do meu peito frio.
Mas nem chega a te derreter.

Me reservo ao direito de te dedicar ódio.
Não o ódio sanguinário...
Nem tão pouco um sentimento torturador.
É aquele ódio em cortes, que só sangra poucas gostas,
Que jamais se cura e nem expõe a carne crua.

Me reservo ao direito de te dedicar ódio.
Porque sou masoquista... e quando sangro me sinto vivo.
Mas não um vivo que pulsa...
Nem tão pouco sente dor...
Um vivo anestesiado que só odeia por que sofreu.

sábado, 26 de maio de 2012

Tanta tolice

E havia tanta tolice em seus gestos tímidos,
Tanta vilania em seus gestos soltos.
Havia nenhuma honestidade.
Não, sem sorriso, ia e vinha
Cruel em passos largos sobre almas que vagueiam
Em céus sujos.
Pisa alto, profano, profundo.
Deixando marcas em águas turvas.
Tanta tolice em meio ao caos.
Tanta tolice em promessas nulas.
E as mulas carregando cargas,
E puxando algozes viris em seus açoites.

Havia ou há?
Passado ou sofreguidão de um futuro?
Havia mares a atravessar,
Havia morros a subir...
Há um precipício a cair.
Há 300 em Esparta, esperando para lutar.
Há outros 300 esperando algo chegar.
Há eu, sem nada a acontecer.

Apenas há onde se havia penas.
Tanta tolice em palavras vis.
Tantos sonhos em sal e dor.
Tantos caminhos a ir e tantos outros a voltar.
Vá cru.
Volte cruel.
Há armaduras em ouro,
Há fel no lugar do licor.
Há luz onde houve luto.
Porque sentimentos bons não morrem
E outros tantos que não deveriam nascer...

Enfim, houve amor.
Nasceu o ódio então...
E tanta tolice nesta escuridão!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Dança

A alma desnuda o solo.
Pó. Piso. Madeira. Dor.
Respiração profunda em espaço curto.
A alma renova em ossos e sons.
Voz distante inspira e expira nossas dores e lamúrias.
Corpo cria raíz.
Se finca ali no tablado
Como se nada mais existisse.
De repente se nasce.
O horizonte é curto, indistinto.
A vontade levanta o corpo.
Vira o rosto, a cabeça tomba.
Um braço erguido toca o ar, afaga o chão.
Pequenos passos aéreos procuram sustentação.
Palmas voltadas ao céu
Rompantes viram o mundo para baixo.
Novo horizonte em limitação constante.
Tombos. Anseio. Mundo. Cor.
Gira tudo.
Gira mundo.
A alma dança.
Flutua sobre o velho mundo.
Claudicantes.
Pés descalços.
Um passo e outro.
Gestos soltos descobrindo novos lugares,
Vendo novos corpos.
Amadurecimento.
Passos firmes, inalterados caminham desejosos
E os gestos deixam de ser novos.
O mundo fora do corpo fascina.
A consciência vive fora, deixa o corpo
E procura outros corpos.
A alma desnuda outros corpos.
Os olhos se cercam já sem medo
Até seu dono dormir...

Às vezes

Às vezes a paixão segura
Em outras nos solta em tão rodopiante vertigem.
Nos falta ar.
Excede em beijos.
Deduz e soma.
Sua.
Soa.
Vem mãos, vão se apelos.
Uma lacuna, um vazio e uma profusão delirante.
Lágrimas, sofisticação, desejo.
Às vezes companhia
Em outras um peso no peito.
Maquia, disfarça, tolera.
Prepara o corpo,
Ultrapassa os medos.
Nos deixa a sós.
Incorpora, retoca, neutraliza.
Às vezes tudo explode, tudo rompe, cai e levanta.
Os dois lados.
Os dois sedentos.
Os dois sozinhos.